O Sagrado e(ra) o Profano

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Na sociedade contemporânea, o modo de ser religioso saiu da esfera protegida da instituição religiosa e da tradição, e se deslocou para a mídia, nova instância organizadora das relações sociais e comunitárias.

É obvio que não estou mencionando especificamente canais ou programas religiosos. Na realidade vamos excluí-los deste artigo.

E também não pretendo chamar a atenção para os enredos de novelas, letras de música seculares, piadas dos programas humorísticos e outras manifestações midiáticas que trazem este modo de ser religioso.

Quero tratar da repercussão mundial que a resignificação do sagrado e do profano gerou a partir do show de imagens que nossa seleção de futebol deu na celebração da vitória na África do Sul.

Recentemente vários torcedores foram entrevistados por um programa esportivo de um canal a cabo por causa da instrução da FIFA para as federações de futebol do mundo todo pedindo moderação nas manifestações em função da comemoração da vitória da seleção brasileira na África do Sul onde muito do apresentado pelas câmeras (excessivamente, penso eu) tinha o modo de ser religioso.

Uns contra, outros a favor, o que mais me chamou a atenção foi o que declarou: “tá errado, na hora de mostrar o patrocinador fica mostrando Jesus. Não pode. O patrocinador tem o direito de aparecer na televisão”.

Este mesmo típico torcedor provavelmente foi um daqueles que num passado recente, criticou a entrada de patrocinadores na camisa dos clubes de futebol. O manto do clube era sagrado e não podia ser profanado pela presença de um patrocinador. Uma relação de dinheiro, somente dinheiro, não podia ficar estampada no adereço santificado, ungido e demonstrativo do amor da legião de devotos que sempre em fé caminham aos domingos para receber dos céus a benção da vitória.

Lugar de patrocinador é nas placas que tem no campo.

Este era o discurso recente de muitos torcedores e jornalistas esportivos, ou melhor, jornalistas futebolísticos antes da sacralização do Marketing no meio.

A camisa do clube e sua representação era o sagrado.

O marketing, o profano.

Numa inversão típica da pós-modernidade agora, o sagrado é o patrocinador, o marketing. O profano é a manifestação religiosa. Só este aspecto dá um TCC completo.

Não dá para precisar porque a FIFA se manifestou a respeito. O modo de ser religioso no futebol é antigo, pelo menos no nosso continente. Quem não se lembra dos jogadores da seleção de 70 se benzendo a cada boa ou má jogada. Muitos comemoravam correndo e olhando para o céu com o dedo erguido. Os que se ajoelharam depois da final foram cobertos por torcedores numa das maiores invasões de campo da história do futebol.

A FIFA e os demais críticos desta atitude precisam abrir os olhos para o mundo contemporâneo. Um mundo onde símbolos e signos estão sendo resignificados.

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