Os desafios de Marina Silva

28 de Agosto de 2009 por Luiz Barbosa Neves  
Categoria Destaque, Entrevista

os desafios de marina silva

ponderações sobre imagem de marca e comunicação política

Mais do que mostrar quem ela é, Marina vai ter que mostrar o que ela quer.

Eis que desponta no cenário político pré-eleitoral mais uma candidatura presidencial para 2010, o que, aliás, é saudável para o avanço de nossa democracia, além de trazer mais uma mulher para o centro das discussões políticas.

Até pouco tempo não tínhamos nenhuma. Heloisa Helena concorreu em 2006. Agora temos duas, podendo quem sabe termos três se a própria HH resolver concorrer à presidência. Talvez alguns se lembrem de Ana Maria Rangel em 2006 que tinha como vice uma mulher. Se você não lembrou ou não sabia, tudo bem. Era só uma alpinista política querendo aparecer usando um partido nanico.

Falando em recentes candidatas a presidência a lista fica maior com a advogada Lívia Maria que se registrou pelo desconhecido PN em 1989 e a administradora de empresas Thereza Ruiz em 1998 pelo PTN. Em 2002, Roseana Sarney na época pelo PFL chegou a atingir o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso, mas acabou soterrada pelo escândalo Lunus.

O primeiro desafio de Marina Silva é ficar conhecida. Calma, eu sei que você a conhece, alguns até bem. Só que você está lendo um artigo na internet. Você é uma pessoa conectada e atualizada. Mas em nosso país quantos realmente são?

Hoje a imagem de Marina é difusa. Seu desempenho parlamentar e recente atuação no Governo não lhe garantiram exposição popular nacional. Os principais temas que defende não atraem a massa nem são fatores de discussão e conversa do dia a dia de várias camadas de nossa população. Durante todo este tempo não foi manchete, nem matéria da maioria dos jornais populares que substituíram os jornais tradicionais.

Saber usar a mídia, principalmente as de alcance popular será um exercício a ser desenhado por seus assessores e responsáveis por sua comunicação.

Aqui abro um parêntese. Nossas leis só permitem campanha eleitoral durante os três meses que antecedem o pleito e também não há a figura jurídica da pré-campanha política. Na realidade é crime fazer qualquer menção a uma candidatura antes do período determinado por lei. Temos muito que evoluir neste aspecto.

Ainda neste sentido, de tornar-se conhecida, vai precisar popularizar seu atual principal discurso. Aquele que a projetou internacionalmente, mas a mantém desconhecida por grande parte de nossos eleitores. Estou falando da sua luta em defesa do Homem e do Meio Ambiente representada pela pouco palatável expressão Desenvolvimento Sustentável.

Ao longo dos anos acompanhei centenas de grupos focais de pesquisa Qualitativa. Para alguns segmentos de nossa população assuntos altamente relevantes para nossa qualidade de vida e da nossa sociedade como um todo simplesmente não pegam. Levam tempo. Mesmo que já tenham sido veiculados e comentados milhares, milhões de vezes.
É impressionante e é verdade. Com todo direito, mesmo que equivocados, suas prioridades e sentido de urgência são outros.

Com a palavra Sociólogos, Antropólogos e Psicólogos Sociais.

Outro fator desafiador na caminhada de nossa valorosa Senadora é a possível radicalização de sua imagem.

Tanto por seus prováveis apoios, quanto pela atuação de parte da nossa imprensa intencionada e disposta a mostrar aquilo que lhe convier no jogo político. Isenção não é bem o forte de nossa mídia. E o pior é que tentam fazer a coisa de forma dissimulada. Não é a toa que a credibilidade da imprensa acompanha a dos nossos políticos.

Ela mal começou sua jornada e já teve de chamar a atenção de alguns importantes veículos de comunicação em recente pronunciamento no Senado. Mais precisamente no dia em que Mercadante não renunciou. Ela denunciou que jornais e blogs haviam reproduzido no dia anterior partes de uma palestra sua totalmente fora do contexto em que tinham sido utilizados originalmente, fazendo parecer como mostrou algumas manchetes que estava radicalizando seu discurso e reprovando os programas sociais do Governo Lula.

Gerir a construção e expansão de sua imagem é importante tarefa tática na estratégia de quem quer ser eleito.

Oriunda das classes populares e ativa militante do PT desde os primeiros momentos do partido, Marina é muito mais parecida com o Lula do que Dilma.

Dentro do espectro que compõe sua imagem de marca este fator não pode ser desconsiderado ou eliminado.

E agora? Aproximar-se mais da imagem do Lula, ou tentar descolar-se dela?

Precipitadamente ou de forma oportunista jornalistas, articulistas e políticos vaticinaram o estrago que isso fará na candidatura da Dilma. Não é bem assim. Analisar cenários políticos eleitorais e as influências de cada detalhe na complexa rede de informações e fatos objetivos e subjetivos que vão atuar na formação da intenção de voto não é tarefa fácil. Nem estática.

Sim, ela é parecida com o Lula.
Mas com qual Lula?

O líder sindical e fundador do PT que movimentou os metalúrgicos e parte da classe trabalhadora em passado recente e chegou à presidência?

Ou o candidato vitorioso que elaborou e assinou a Carta ao Povo Brasileiro e tem os mais altos níveis de aprovação de um Presidente da história estratificada de nossa política?

Belos desafios.

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Comentários

13 Comentários em "Os desafios de Marina Silva"

  1. Berlitz on Sex, 28 de Agosto de 2009  

    Muito bom seu artigo sobre Marina.
    Mas ela (espero) não deve se tornar parecida com o Lula que apóia Sarney, abraça Renan e elogia Collor.

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  2. Luiz Barbosa Neves on Sex, 28 de Agosto de 2009  

    Os caminhos da campanha não indicam isso. Mas, no poder, nada podemos garantir.

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  3. LC on Sex, 28 de Agosto de 2009  

    Oriunda das classes populares e ativa militante do PT desde os primeiros momentos do partido, Marina é muito mais parecida com o Lula do que Dilma.
    >>>>>>>

    Nessas linhas aí de cima há um belo start-up pra qualquer trabalho de comunicação com a candidata Marina Silva. Há alguns dias, eu comentei: a política se repete, a Marina Silva de hoje é a Heloísa Helena de ontem. Acho que vc ajudou a responder algumas das muitas perguntas que um futuro profissional de comunicação e marketing político precisavam responder antes de começar a trabalhar a candidata Marina para além do que foi a Ministra e Parlamentar.

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  4. Luiz Barbosa Neves on Sex, 28 de Agosto de 2009  

    Inclusive, no momento, algumas pessoas a confundem com HH. Pesquisas Qualitativas em todo território nacional vão dar aos responsáveis pela campanha a dimensão da imagem de Marina. Adivinhar é proibido.

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  5. Felipe on Sab, 28 de Agosto de 2009  

    Acho difícil a cadidatura dela para presidência. O PT está dando muitos foras mas essa aliança com o PMDB ainda me intriga. Acho que o verdadeiro candidato do PT vai sair do PMDB. Não há um do PT que a mídia vai perdoar. Sempre existem os Duda Mendonças da vida pra fazerem milagres. A campanha do Obama foi a mais premiada em Cannes, não vai ser dificil surgir um nome surpresa do PMDB. O PT não é mais o mesmo, depois de 7 anos no topo todo mundo vira elite e isso tem lá sua parte “boa”.

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    Danilo Reply:

    Não.. Dificilmente o PMDB vai lançar um candidato próprio para a corrida presidencial brasileira. O PMDB procura cargos pouco visados, onde a mídia pouco mexe, cargos que o poucos sabem que existem. É bem mais fácil desviar dinheiro assim.

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    Luiz Barbosa Neves Reply:

    Saudades do antigo MDB. Mas temos de trabalhar com o que está no cenário. Transparência e participação ajudam muito na mudança da política brasileira.

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  6. Luiz Barbosa Neves on Sab, 28 de Agosto de 2009  

    Momento pré-eleitoral serve para muitos propósitos, inclusive ventilar conceitos e siglas partidárias visando oxigenar seus quadros e preparar nominatas. Não dá para saber ainda se a candidatura dela vai viabilizada. Quanto ao PT e PMDB, tudo que não precisamos é de uma mexicanização da política brasileira.

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  8. Daniela Lima on Sab, 28 de Agosto de 2009  

    A Marina, não tem nada de Heloisa Helena, acredito que ela foi a parte mais ponderada do PT.Me pergunto se ela realmente se parece com os 2 Lulas q vc citou.
    Não sou adepta a nenhum partido, se ela realmente sair como candidata, fico feliz, pq vou ter em quem votar!

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  9. Luiz Barbosa Neves on Sab, 28 de Agosto de 2009  

    É por isso que profissionais usam pesquisas e estudos do comportamento. Sua opinião, válida e democrática, faz parte de um segmento do pensamento brasileiro. É parte do todo.

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  10. Alfonso Francisco Kleinmayer Fh on Ter, 28 de Agosto de 2009  

    A base do discurso de Marina Silva é o desenvolvimento sustentável, algo realmente positivo, a dificuldade é traduzir o que é isso em termos populares.
    O eleitor normalmente quer benefícios imediatos, e não uma aposta no futuro, o futuro não lhe pertence, e na atual conjuntura, não está nem preocupado com o amanhã e o que ocorrerá se algo não for modificado, pois a maior parte do eleitorado conta com o Estado para cuidar dele.
    Desafio grande para Marina, mas se conseguir comunicar sua idéia com o eleitor, poderá se sair muito bem eleitoralmente.

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    Luiz Barbosa Neves Reply:

    Pois é, ela começou a explicar isso ontem segunda 31 de agosto no Programa do Jô, onde inclusive contou com a tietagem explícita do apresentador. Mas este programa não tem uma grande audiência nas camadas populares. Vamos acompanhar sua performance.

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