Eleição e Religião. A crença como cabo eleitoral.
27 de Novembro de 2009 por Luiz Barbosa Neves
Categoria: Ciências das Religiões, Destaque, Marketing
O engraçado é que mesmo apresentando estes dados com gráficos do IBGE e mapas do Atlas das Religiões editado pela PUC cruzando com Tabelas do TRE muita gente não acredita. São Tomés.
Falar de religiões é sempre delicado. Fé, dogmas, experiências místicas e certezas infinitas devem ser discutidas com o devido respeito, algum conhecimento histórico e entendimento antropológico e sociológico do papel das religiões na construção da humanidade.
Quando mesclamos este tema com outros que também fazem parte do arco das relações sociais os cuidados ganham contornos especiais. Pois o risco de desagradar ou ser mal interpretado é multiplicado.
Ainda bem que vou tratar de religião e política, temas pouco inflamáveis e bem aceitos pela maioria.
Vou me ater aos fatos gerados pelas últimas eleições.
No Brasil o voto com estreita ou alguma ligação religiosa é recente e fruto não só do crescimento das religiões, mas também do “modo de ser religioso”. Fenômeno sociológico pós-moderno que tirou as religiões de dentro dos templos e locais assemelhados e as projetou na moda, na música e nos negócios, para ficarmos apenas com alguns exemplos e é claro na política.
Aos poucos os líderes cristãos católicos e protestantes, espíritas e afro-religiosos foram assumindo candidaturas e apresentado seus indicados não como mais um bom candidato, mas sim como um representante da fé.
Seitas menores ou com menos tradição vieram a seguir.
No Rio, um dos pioneiros pelo viés protestante foi Daso Coimbra com o slogan “irmão vota em irmão, e na tradição afro-religiosa o Átila Nunes e família com um slogan similar. “Átila Nunes meu irmão”.
Em 2000 já tínhamos uma análise sobre o desempenho eleitoral de candidatos religiosos e em 2002 e 2004 alertamos várias lideranças protestantes e católicas que a opinião do eleitor cristão estava se descolando da orientação original.
A liderança apontava para um lado e a maioria dos fiéis ia para outro.
No início duvidaram de nossas projeções acreditando na coesão do grupo.
Mas os resultados de 2004 já mostravam que estávamos com razão. No Rio, por exemplo, a Universal através do PL elegeu apenas dois vereadores em todo estado.
Isso porque o ex-bispo Rodrigues, já sem apoio da igreja e mesmo do partido trabalhou estes dois candidatos.
Em 2006 a bancada cristã evangélica da Alerj perdeu meia dúzia de cadeiras.
Entre eles, não se reelegeu, o irmão de um dos pastores mais midiáticos e conhecidos do país e membro da Assembléia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil.
Também no congresso a mudança foi grande. Os evangélicos ligados ao problema conhecido como “sanguessugas” não foram reeleitos.
Isso num país que reelege seus parlamentares envolvidos em crises sem nenhum problema.
Vide Arruda, ACM, Palloci, Genoíno etc, etc e etc.
Na realidade pouca gente reconhece esta característica do voto religioso. A baixa tolerância com a exposição de seus eleitos a escândalos e crises, pessoais ou institucionais.
Isto tem a ver com empoderamento e a visão sacerdotal do eleito/ungido.
Átila Nunes citado acima foi recordista brasileiro de mandatos sucessivos (nove) até ver seu nome parar nos jornais por conta de problemas com consultorias para empresas em questões de defesa do consumidor quando ele era presidente desta comissão na Alerj. Perdeu a eleição e precisou reconquistar a confiança dos umbandistas do Rio até conseguir retornar ao legislativo. Hoje está no décimo terceiro.
Outros aspectos também devem ser levados em consideração.
Por ter posição favorável ao aborto, Jandira Feghali perdeu muitos votos entre católicos numa campanha que correu várias igrejas e celulares (torpedos) e lhe custou à eleição para o senado. O eleito foi o católico Dornelles que perdia a eleição quinze dias antes do pleito.
Como qualquer segmento eleitoral, o religioso tem características específicas e é preciso acompanhar seu desenvolvimento, pois as religiões estão em movimento e os religiosos em desdobramentos. Essa leitura não é nada fácil.
Vejam isto.
Marcelo Crivella, Bispo (agora não mais) da Universal sobrinho do Edir Macedo, eficiente missionário na África, pregador de agenda lotada foi eleito em 2002 para o Senado com 3.243.289 votos. Sergio Cabral foi o mais votado passando dos 3,5 milhões e o terceiro colocado foi o Pastor Manoel Ferreira, Presidente da Assembléia de Deus, com 1,8 milhões de votos.
Ainda tiveram votos Leonel Brizola, Arthur da Távola e Edson Santos.
Quantos evangélicos vivem no Rio? 21,1% da população
Quantos eleitores? Agora que chegamos 11 milhões.
Conclusão, Crivella, na época com uma campanha cristã evangélica foi eleito por católicos, carismáticos, umbandistas, kardecistas, candomblecistas, budistas, messiânicos, etc, evangélicos e outros cidadãos que se declaram sem religião.
O engraçado é que mesmo apresentando estes dados com gráficos do IBGE e mapas do Atlas das Religiões editado pela PUC cruzando com Tabelas do TRE muita gente não acredita. São Tomés.
Agora, o que todo mundo quer saber, é que influência terá o voto religioso na próxima eleição.
Mas este tema fica para uma próxima oportunidade.
Luiz Barbosa Neves.
O Estado é laico, mas a nação é religiosa.
4 de Setembro de 2009 por Luiz Barbosa Neves
Categoria: Ciências das Religiões, Destaque
Para muitos a contemporaneidade é amanhã, não hoje e muito menos ontem.
O acordo do governo com o Vaticano sobre o ensino facultativo de religiões nas escolas públicas fere o sentido de Estado Laico?
É legítimo o Senado propor ao Calendário Oficial uma data de expressão religiosa como a Marcha para Jesus?
O “modo de ser religioso” é uma temática das Ciências das Religiões e confunde muita gente. Até mesmo os religiosos.
Para boa parte da sociedade as manifestações ou representações religiosas deveriam acontecer somente em templos ou lugares assemelhados.
Foi isso que os religiosos por muito tempo ensinaram à sociedade.
Ressaltando inclusive o respeito que se deva ter a representação do SAGRADO, seja ela qual for e instruindo o povo sobre a diferenciação do profano.
Agora estes mesmos religiosos querem estar cada vez mais em espaços profanos introduzindo novos ritos ou resignificando o sagrado.
Na realidade as manifestações religiosas externas aos templos ou assemelhados estão em nossa cultura há muito tempo.
Ao assumir o espaço urbano/profano estas manifestações ganharam características de festa popular. Provavelmente você já foi a várias e nem se tocou que estava em um evento religioso.
Vou tentar ser bastante direto no texto abaixo porque o assunto é complexo e com muitas escolas a serem estudadas. Mas se você quiser ter uma leitura mais profunda do assunto pode começar por Jaime Carlos Patias – O sagrado e o profano: do rito religioso ao espetáculo midiático.
Jaime é licenciado em filosofia pela PUC do Paraná, bacharel em teologia pela Universidade de Louvain e mestre em comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. Padre do Instituto Missões Consolata (IMC) e diretor da revista Missões. Membro do Grupo de Pesquisa da Comunicação na Sociedade do Espetáculo, autor de vários artigos e co-autor do livro Comunicação Sociedade do Espetáculo, São Paulo: Paulus, 2006.
Foi ele que elaborou a expressão “Na sociedade contemporânea, o modo de ser religioso está saindo da esfera protegida da instituição religiosa e da tradição, e se deslocando para a mídia, nova instância organizadora das relações sociais e comunitárias”.
Para muitos a contemporaneidade é amanhã, não hoje e muito menos ontem. Somos muito conservadores. É por isso que muita gente fica sinceramente constrangida e até ofendida quando vê no noticiário as instituições religiosas alcançando cada vez mais espaço no mundo secular.
Porém chamo a atenção para o fato que essa discussão está datada e distorcida.
Ao oficializar a data de uma marcha simbólica supra-religiosa e internacional estaria o Estado realmente deixando de exercer seu laicismo? O argumento do proselitismo religioso não foi capaz de minar a força deste movimento que começou na Inglaterra e já roda o mundo. Se você nunca observou o reencantamento do mundo e desconhece a força que isso representa na pós-modernidade vai provavelmente achar que este tipo de evento é apenas propaganda religiosa. É muito mais, é o modo de ser religioso. Aos poucos outras instituições religiosas com menos expressão em nossa cultura vão expondo por eventos ou imaginética sua presença no cotidiano das cidades. Hoje no Rio de Janeiro os vidros traseiros da maioria dos automóveis são verdadeiros painéis publicitários das mais diversas religiões. Eu já vi em uma parada de sinal de trânsito seis carros a minha frente com mensagens de seis religiões ou seitas diferentes.
Qualquer dia eu vou fotografar e colocar no site cenas deste tipo.
A mobilidade das religiões é um fato. O imobilismo do sentido laico é outro fato.
Um dos caminhos para o eficaz combate a intolerância religiosa é a informação e a educação. O Estado deve impedir em nome do laicismo que nossa sociedade se eduque trazendo como benefício o entendimento da diversificação religiosa desde o ensino fundamental?
Leis protegem direitos e são bem vindas no esforço de harmonizar a sociedade, porém leis e aparelho repressor não são o suficiente para resolver nossas questões. Se fosse assim ninguém assaltava. Me permitam um exemplo rasteiro.
Nunca soltei balão, meu pai me ensinou que era perigoso, mas vi ao longo dos anos milhares de balões no céu carioca. Neste mesmo tempo as escolas sempre se preocuparam em passar a mesma orientação que meu pai me deu. Soltar balão é um perigo. E tome, desenho, colagem e redação e a cada geração educada menos balões no céu. Este ano vi pouquíssimos. Muitos foram educados, poucos foram presos ou multados.
Ao Estado cabe observar a nação e seus anseios. Aos legítimos, dentro de pressupostos legais e justos convém o anexo ao estado de direito.
Publicações Religiosas: Recordes
12 de Agosto de 2009 por Luiz Barbosa Neves
Categoria: Ciências das Religiões, Destaque
Estou reproduzindo a nota que saiu hoje na Veja OnLine, sobre o expansão do segmento editorial religioso. Fator inequívoco do crescimento do modo de ser religioso no Brasil.
Livros e religião
- O segmento de livros religiosos foi o que mais cresceu em exemplares produzidos (21,8% a mais que no ano anterior) e em faturamento (13,5% a mais). Na outra ponta, o segmento dos livros didáticos reduziu sua tiragem total em 17,8%.
- *A pesquisa constata também que as igrejas tornaram-se um novo canal de vendas. Ali, se venderam pelo menos 3 milhões de exemplares, ou 1,5% do mercado total.
- Por Lauro Jardim do Radar OnLine da Revista Veja
O Sagrado e(ra) o Profano
23 de Julho de 2009 por Luiz Barbosa Neves
Categoria: Ciências das Religiões, Destaque, Sociologia do Consumo
Na sociedade contemporânea, o modo de ser religioso saiu da esfera protegida da instituição religiosa e da tradição, e se deslocou para a mídia, nova instância organizadora das relações sociais e comunitárias.
É obvio que não estou mencionando especificamente canais ou programas religiosos. Na realidade vamos excluí-los deste artigo.
E também não pretendo chamar a atenção para os enredos de novelas, letras de música seculares, piadas dos programas humorísticos e outras manifestações midiáticas que trazem este modo de ser religioso.
Quero tratar da repercussão mundial que a resignificação do sagrado e do profano gerou a partir do show de imagens que nossa seleção de futebol deu na celebração da vitória na África do Sul.
Recentemente vários torcedores foram entrevistados por um programa esportivo de um canal a cabo por causa da instrução da FIFA para as federações de futebol do mundo todo pedindo moderação nas manifestações em função da comemoração da vitória da seleção brasileira na África do Sul onde muito do apresentado pelas câmeras (excessivamente, penso eu) tinha o modo de ser religioso.
Uns contra, outros a favor, o que mais me chamou a atenção foi o que declarou: “tá errado, na hora de mostrar o patrocinador fica mostrando Jesus. Não pode. O patrocinador tem o direito de aparecer na televisão”.
Este mesmo típico torcedor provavelmente foi um daqueles que num passado recente, criticou a entrada de patrocinadores na camisa dos clubes de futebol. O manto do clube era sagrado e não podia ser profanado pela presença de um patrocinador. Uma relação de dinheiro, somente dinheiro, não podia ficar estampada no adereço santificado, ungido e demonstrativo do amor da legião de devotos que sempre em fé caminham aos domingos para receber dos céus a benção da vitória.
Lugar de patrocinador é nas placas que tem no campo.
Este era o discurso recente de muitos torcedores e jornalistas esportivos, ou melhor, jornalistas futebolísticos antes da sacralização do Marketing no meio.
A camisa do clube e sua representação era o sagrado.
O marketing, o profano.
Numa inversão típica da pós-modernidade agora, o sagrado é o patrocinador, o marketing. O profano é a manifestação religiosa. Só este aspecto dá um TCC completo.
Não dá para precisar porque a FIFA se manifestou a respeito. O modo de ser religioso no futebol é antigo, pelo menos no nosso continente. Quem não se lembra dos jogadores da seleção de 70 se benzendo a cada boa ou má jogada. Muitos comemoravam correndo e olhando para o céu com o dedo erguido. Os que se ajoelharam depois da final foram cobertos por torcedores numa das maiores invasões de campo da história do futebol.
A FIFA e os demais críticos desta atitude precisam abrir os olhos para o mundo contemporâneo. Um mundo onde símbolos e signos estão sendo resignificados.





